Tuesday, January 25, 2011

Este é ainda o ser humano que perdura...


Todos os anos, na véspera de Santo Antão, a pequena aldeia espanhola de San Bartolomé de Pinares, perto de Ávila, é iluminada pelo fogo "purificador" de duas dezenas de grandes fogueiras. E na noite do passado domingo, como sempre, os cavalos, as éguas, os burros e as burras de toda a região central da meseta castelhana foram até ali levados pelos respectivos donos, a fim de cumprirem o ritual - por vezes assustador - de saltarem as fogueiras acesas em honra do patrono dos animais. Só que os cavaleiros, para além de serem voluntários, estão mais protegidos das chamas do que os desprevenidos equídeos, o que está de acordo com a linha das tradições de recorde bárbaro desenhadas à imagem dominadora do bicho-homem.

Texto retirado na integra da Revista Visão de 20 de Janeiro de 2011

Friday, January 21, 2011

Não é meia-noite quem quer


"Há anos que este verso de René Char me persegue. Pensei usá-lo como título de um livro, como coda para um capítulo, fazer variações em torno dele num texto qualquer. Não fiz nada, até agora, porque me anda na cabeça mas não me aparece na mão, e só consigo escrever com os dedos, os miolos não pegam na esferográfica. Por qualquer motivo obscuro o bico da caneta não o aprova. E, no entanto, volta não volta lembro-me dele."

"Começo a fazer esta crónica com pausas dado que a mão vazia, parece que tropeça na página, lá se recompõe, a pobre, ameaça desmaiar de novo, um livro na estante, não sei ao certo onde, à minha esquerda, acho eu, principia a conversar comigo, pergunta uma coisa que não entendo bem, não lhe respondo, faço um gesto sem destino na esperança de contentá-lo, o livro cala-se, que esquisitos os livro, tanta barulheira às vezes."

"Uma ajudinha amigo
e fico aqui a ler, na mesma mesa em que rabisco as páginas, que silêncio nas coisas, que vazio, não é meia-noite quem quer, rodeio-me de pessoas que não existem, sinto-me cheio de palavras que não amadurecerem ainda, não palavras, larvas de palavras, imagens que surgem e se desvanecem, desfocadas, fugidias, peço a mim mesmo
- Uma ajudinha amigo"

António Lobo Antunes, in Visão 20 Janeiro de 2011

Tuesday, January 18, 2011

Em campanha?


Hoje falo sobre a Campanha Eleitoral para a Presidência da Republica. Ou, esperem lá... estamos em campanha não estamos? Bem, partindo do princípio sim, há muito pouco a comentar. Para falar verdade, não tenho memória de uma campanha eleitoral assim, tão vazia, tão insípida (e olhem que estou a ser meiga nos adjectivos...)... O dia 23 está aí e ainda não sabemos quais são os projectos de cada candidato.
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E os dias vão passando entre injúrias e chalaças. Nada de novo. E o povo vai assistindo alegremente, ou não, ao arremesso de larachas (que coisa bonita!)...
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E o país encolhe e a sociedade murcha!

Monday, January 17, 2011

Ouvir como quem ama



E disseste baixinho: Não sei o que fazer com o resto do amor...
Aproximei-me e pousei os meus lábios nos teus...

Sunday, January 16, 2011

Ausência


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branda, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
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Carlos Drummond de Andrade

Subsiste o vazio...


Quando as palavras ficam presas na linha que nos separa...

A natureza é (in)flexível?


Há uma enorme dificuldade em abrir os olhos das pessoas. Comovê-las e destroçar-lhes a alma, é fácil; difícil é fazer com que a luz lhes penetre o cérebro. Que benefício existe em mudar-lhes os sentimentos, se estas continuam no mesmo registo dos idiotas?
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Jonh Ruskin