Sunday, July 12, 2009

Agarrado a mim!


Este dia ficará para sempre guardado, agarrado a mim.
O primeiro ficou… e (depois) fugiu!
São dias para onde corro quando me sinto a expirar!
Agarro-me ao que permaneceu... E,
conservo, assim, o que sobejou de nós!

(Lá estou eu… pondo palavras, onde
antes só existiam sentimentos!)

Saturday, July 11, 2009

Lá longe, há diferenças que não fazem diferença!



«Eu sei que isto parece uma frase feita, mas tinha a sensação nítida de que haviam passado muito mais de que três noites e os quatro dias que nos haviam trazido até ali. Parecia-me que já tínhamos vivido um bocado de vida imenso e tão forte que era só nosso e nós mesmo não falávamos disso, mas sentíamo-lo em silêncio: era como se o segredo que guardávamos fosse a própria partilha dessa sensação. E que qualquer frase, qualquer palavra, se arriscaria a quebrar esse sortilégio. Sentia-me tão íntimo e tão próximo dela, que tive necessidade de o sentir também fisicamente.»

«A maior parte do tempo, porém, o que nós partilhávamos era o silêncio. E isso eu aprendi contigo, porque não sabia. Para mim, o silêncio era sinal de distância, de mal-estar, de desentendimento. Ao princípio, quando ficávamos calados muito tempo, eu sentia-me inquieta, desconfortável, e começava a falar só para afastar esse anjo mau que estava a passar entre nós.
Um dia tu disseste-me:
- Cláudia, não precisas de falar só porque vamos calados. A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio.»

«Anos mais tarde, já estava doente, voltei a lembrar-me dessa nossa conversa. Tinha acabado de te escrever uma carta – mais uma, talvez a terceira – que nunca te cheguei a mandar e que destruí depois. E, escrevendo, poupei as coisas que gostaria de te ter dito e que gostaria que tivesses ouvido. Cheguei quase a convencer-me de que bastava escrever-te para tu me ouvires, mesmo que nunca tenha chegado a pôr a carta no correio. Porque era tão sentido e tão magoado, tão distante, o que te dizia nessas cartas, que quase acreditei que tu não podias deixar de me ouvir.»

«Queria que me ouvisses e que falasses comigo. Mas não te queria ver, não queria que me visses. Assim.»

«Sim, de vez em quando falávamos ao telefone. Tu telefonavas-me para o trabalho, a telefonista anunciava o teu nome e passava-me a chamada, e eu fechava os olhos por um instante antes de atender, como se assim pudesse ver-te outra vez lá longe, onde juram que as grandes dunas brancas que nos rodeiam se movem todos os Verões e onde as estrelas à noite eram tão próximas que parecia que se estendêssemos a mão conseguiríamos tocar-lhes e eu dizia-te, à porta da tenda:
- Xiu, ouve o ruído das estrelas!»

«Depois disso, voltei onze vezes ao Sahara. Nunca como contigo, nunca tão fundo, tão longe, tão perdidamente. Mas voltei, porque o deserto tornou-se quase um vício e a minha íntima religião, o único divino a que prestava contas e onde me reencontrava. E, de cada vez que voltei, pensei em ti e pensei como seria bom, incrivelmente bom, voltar contigo. Nessas alturas, como nas outras, eu repetia a mim mesmo: “Não há regresso. Há viagens sem regresso nem repetição.”»

«Quando tudo era bonito de mais ou duro de mais, tu ficavas calada a olhar silenciosamente. Falámos sobre isso uma vez, e eu disse-te que a vida me tinha ensinado que fácil era o ruído, as conversas sem sentido, a banalidade das palavras ditas sem necessidade alguma. De nós os dois, tu eras, sem dúvida alguma, a mais calma, a mais feliz tranquilamente. A mais atenta, a mais disponível para o vazio e o silêncio. Ah, não te rias, eu observei-te bem, sei do que falo!»

Miguel Sousa Tavares, No teu deserto
(Quase Romance)

Thursday, July 9, 2009

(Filha) Acordei hoje contigo no coração

.
Deixo-te aqui um beijinho.

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner

Tuesday, July 7, 2009

Parabéns!


O dia é teu. Parabéns!
E este sorriso que trago, hoje, no rosto, também!

Thursday, July 2, 2009

De alguma maneira caracterizam-nos


“E a voz o que é? É uma forma de ver, de pensar, de sentir, e de raciocinar sobre as coisas, uma perspectiva de futuro, uma outra perspectiva de passado, que há que vê-lo em perspectiva e com domínio da língua. Um conhecimento dela tão profundo quanto se possa, que não tem necessariamente que passar pelos escritores para passar a língua. Não tem de estudar a língua tem é de ler aqueles que escreveram melhor que ele. É a ler! Mas cada um de nós é único e irrepetível e quando escrevemos algo da nossa personalidade, ou da nossa visão do mundo, ou do nosso léxico particular, que também é geral, mas cada um de nós comunica-se com um grupo de palavras que podem ser outras, que podem alargar-se, que podem contrair-se – de alguma maneira caracteriza-nos. As palavras que usamos em maior ou menor percentagem, quantidade ou frequência acabam por traçar um retrato nosso.”

João Céu e Silva, in Uma longa viagem com José Saramago

Sunday, June 28, 2009

Adoro-te!

E disseste:
Neste espacinho, adoro-te!

Wednesday, June 24, 2009

Pedir-lhes companhia...




É melhor vivê-las, assim, muito devagarinho, amá-las.
Pedir-lhes companhia.